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rosimeire santos   

setor de projetos culturais da maso  

BRA salvador/são paulo

 

 

 

Cidade de Salvador, sempre um bom motivo para amá-la 

Fazer uma declaração de amor é algo  difícil, pois,  há sempre o temor de que  o seu ato  não seja correspondido,  que  possa ser rejeitado ou que o julguem demodê. Mas é impossível permancer indiferente morando em uma cidade como Salvador.

Cada dia é uma nova descoberta, um apredizado e  um novo sabor. Assim é esta cidade.

Para queles que queiram constatar o que digo, peço que quando estiverem de passagem  pelo Terreiro de Jesus - bem no coração da cidade- prestem atenção a uma galeria estreita que fica ao lado do Bar do Cravinho, pois  esta  galeria dá acesso ao bar chamado Fundo do Cravinho.  Ao término do corredor você é logo surpreendido, pois se depara com um espaço vasto que se divide em dois ambientes com inúmeras mesas, além de um espaço para aqueles,  que não conseguem se conter ao ouvir um dos sons mais tradicionais do Brasil e cai no samba, que é claro, nasceu na Bahia.

De segunda a domingo o Bar Fundo do Cravinho, oferece aos amigos que o frequentam um repertório variado que vai desde nossos maiores mestres do  samba aos jovens talentos da atualidade. Só samba de qualidade.

Um ambiente agradável, em que grande parte de seus frequentadores é a população local, diferente da maioria dos estabelecimentos da região tipicamente frequentados por turistas. No bar  Fundo do Cravinho a faixa etária é outro dado interessante, pois a frequentadora mais jovem,  pelo que pude observar tinha uns 7 meses que  dormia confortavelmente nos braços do pai,  após ser vencidada pelo cansaço do sobe e desce do seu  carrinho e da apetitosa mamadeira.

Este breve reconhecimento do  território recém descoberto, como não poderia deixar de ser, foi acompanhado de uma  geladíssima Brahma- minha  predileta - e de um delicioso arrumadinho. Aliás, os pratos principais da cozinha são Arrumadinho e Moela.

Para aquelas pessoas, que como eu, não sabem o que é este prato,  arrumadinho consiste em uma porção de feijão tropeiro, carne- do- sol, cebola, coentro e tomate bem picadinho, todo arrumadinho em uma cumbuca de cerâmica.

O sabor? Só provando. Para mim é divino. Esta é apenas uma das tantas opções oferecidas pela casa.

O atendimento merece um aparte todo especial, os proprietários,  sempre muito atenciosos, percorrem as mesas para um bate-papo e com a preocupação constante em saber se estamos sendo bem atendidos, coisa rara em Salvador. O Fundo do Cravinho existe a 12 anos, porém, está sob nova direção há 4 meses.

Para quem está em Salvador, não deixe de conferir, e já está cotado para quando ocorrer o encontro dos correspondentes do Tabuleiro Cultural, muito bem salientado por Decio Viana,  em territórrio soteropolitano.

 

mauricio trindade

sociólogo - GEDES SESC S.P.

BRA - são paulo 

 

Pôr do Sol 

Durante toda aquela tarde o vento soprou musicalmente em direção ao mar. Era começo de verão e o sol hesitava entre as nuvens, como a sugerir uma brincadeira de esconde-esconde ante o nosso olhar de delicada humanidade, que precisa de seus raios multicores para sobreviver. Mas o calor se fazia presente, permitindo os trajes de banho - e a água do mar deliciava. Ao longo das duas mesas colocadas na areia da praia avolumavam-se várias latinhas de cerveja, empilhadas em triângulo-equilátero; o vento zunia ao perpassá-las, confundia-se com as vozes de todos nós ali e formava uma polifonia de sons lancinantes.

A ocasião que permitiu reunir os amigos em frente ao mar era simples, muito simples. Tratava-se até de uma mera informalidade face ao mundo tal qual ele é, algo não tão costumeiro mas plenamente significativo como um rito de passagem. Comemorávamos a razão de se ter algo para comemorar. Isso mesmo. Pois é sempre assim, não é?, quando os amigos se encontram e decidem, todos, inexplicavelmente, ir para a praia, beber, conversar, rir, passar o tempo? Qual signo da contingência traduz o acerto na escolha de um momento? Sim, estávamos felizes; sim, era uma comunhão de todos com todos, a favor de todos e para todos entre nós. Porque o domingo permitia, a cidade permitia, os ânimos permitiam - e eis a praia, o sol, o vento e o mar!

Assim os 10 amigos; casais formados sem ortodoxia, olhares que se cruzam em foco convexo num caos cosmológico. Falava-se de tudo no rumor das horas e no vai-e-vém de latinhas esvaziadas: “Aeh, manda mais uma aqui!”; “Ah, cervejas… prefiro Norteña, Patricia ou Oráculo, na garrafa, geladinha…”; “Como está seu filho? Nossa, ele parece ser seu irmão…”; “Isso, foi naquele dia mesmo, quando o Lula fez um pronunciamento…”; “Mas que coisa, não adianta repisar o assunto e acrescentar eiras e beiras…”; “Caramba, não sabia que o João, primo da sua tia e famoso como é, é amigo da mãe da minha namorada… Que mundo ervilha…”.

A vacuidade em abismos com que se entrava e saia de assuntos permitia poucas pausas para os momentos de paralisação fotográfica. Poucas, e algumas. E é foto em união, desorganização, junção bilateral, amontoado pluri-unívoco - e o desejo de uma foto do pôr do sol, que já se anunciava.  Dentre todos, ela quis tirar a foto como recordação. Ele se prontificou a ajudar. “Ah, é preciso esperar a formação de uma linha de raios e…”. E ela: “Não, não - basta o momento presente, e só…”

Click.

Os dois olharam a foto no pequeno visor da máquina digital e ficaram felizes.

 

Gosto de retomar essas coisas. Não é preciso ser um iniciado em Albert Camus e no avesso e direito da vida para saber que é assim. O tempo passa e somos nós que passamos. Não gosto de ver as folhas caírem das árvores, assim como entristeço não sei por quê, e tanto, justo quando surge mais um ano e as estações recomeçam. Isso dura um pouco; no entanto, dura um pouco como o vestígio litigioso de um raio de lucidez que ecoa na íris dos olhos. Naquele dia, naquela tarde, na conversa entre os amigos - tudo se justificou. O sorriso em minha direção que vinha dela e aquele lance de olhares que pendia para o meu corpo buscavam a genealogia da minha alma. Eu olhava de volta, intencionalmente, e desejava enaltecer e completar o olhar que me buscava. 

Sei que foi por isso que durante toda aquela tarde o vento soprou musicalmente em direção ao mar…

 

 

 

norma menezes
área de prod. executiva de projetos da maso
BRA - salvador

Lembranças…

 É     engraçado  como  momentos   vividos   na  infância   e   adolescência

nos marcam, seja de modo positivo, nos trazendo saudade quando relembramos ou de modo negativo, aflorando a tristeza e melancolia guardada e escondida num cantinho do nosso coração.

Sabe quando você ouvi uma música ou sente um perfume e vem em sua mente aquele filme de um momento que marcou, foi o que aconteceu em um recente passeio de Ferry Boat para a Cidade de Nazaré das Farinhas/Ba, revivi momentos alegres trazendo saudade de pessoas, de situações e experiências.

Começando pelos preparativos,  acordar cedo, a expectativa da chegada ao Terminal de São Joaquim, a espera das pessoas que embarcarão comigo e o embarque propriamente dito, com escolha do melhor lugar para aproveitar a travessia, a vista deslumbrante da Cidade de Salvador, da Ilha de Itaparica, o som do vai e vem das ondas, o sol que teima em aparecer num dia nublado, tive a sensação de que o tempo não passou, de que ainda sou uma menina a descobrir o mundo.

 Relembrei a primeira viagem de carro da família com destino ao Rio de Janeiro, férias, a atmosfera festiva, os sentimentos se misturavam, alegria, ansiedade, expectativa pela chegada ao destino, felicidade pela concretização de um sonho realizado. Piadas e brincadeiras foram a tônica da viagem, as risadas e choros eram senhas para saber se a brincadeira foi aceita ou não, as paradas nos postos de combustíveis para abastecer o carro, para o almoço ou mesmo para esticar as pernas, as compras dos produtos na beira da estrada, passando por Porto Seguro impossível não sucumbir ao artesanato local, saudade, muita saudade, esse é meu sentimento nesse momento. Tantos outros passeios em família fizemos, esse,  por tantas outras razões foi o mais marcante. Recordações como essas me dão conta do quanto tive uma infância feliz.

 Mais tarde na minha adolescência revivi outra fase de descobertas e felicidade, onde conheci pessoas que se tornaram amigos e amigas, e com eles  o reconhecimento de que era chegado o momento de caminhar com minhas próprias pernas, fazer o  meu caminho, alguns desses amigos hoje fazem parte do meu circulo de amizades, cada qual seguiu sua direção, é uma alegria imensa quando nos falamos por telefone ou nos encontramos, temos a impressão de que o tempo não passou e a certeza do quanto os sentimentos compartilhados marcaram nossas vidas.

 Os finais de semana na Ilha, a liberdade de poder andar descalço, de usar biquini o dia todo, tomar banho de mar qualquer hora que desse vontade, horário para almoçar e dormir eram os mais variados, um completo sentimento de liberdade. Tenho saudade dessa epóca, do despreendimento que viviámos.

Uma frase dita por um amigo descreve perfeitamente meu sentimento nessa viagem à Nazaré das Farinhas, “Relembrar com saudade é viver outra vez” .

Revivi outra vez uma fase maravilhosa da minha vida. Saudade!!!   

adriana balsanelli
BRA - são paulo

 

Letras inéditas de Itamar Assumpção no projeto Sem Pensar, Nem Pensar 

Foi por telefone que Itamar Assumpção (1949-2003) passou para o compositor Sergio Molina as letras de suas últimas composições, pouco tempo antes de morrer. O músico Sérgio Molina e a cantora Miriam Maria (uma das Orquídeas do Brasil, grupo que acompanhou o músico em shows memoráveis), cumpriram o desejo do amigo. Transformaram em músicas as 11 letras inéditas deixadas por Itamar, entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, alguns meses antes de sua morte. O músico, que sempre gostou de compartilhar sua obra, decidiu escrever letras especialmente para serem musicadas pelo compositor Sérgio Molina e cantadas por Miriam Maria.

A primeira parte dessa tarefa já foi entregue ao público paulistano no show Sem Pensar, Nem Pensar, em temporada na Unidade Provisória SESC Avenida Paulista, de 29 de março a 20 de abril.

Itamar ainda desejava que Sem Pensar, nem Pensar também se transformasse em CD. A gravação desse CD com as 11 músicas inéditas, é a segunda parte da tarefa deixada por Itamar, que ainda está pendente, aguardando ser contemplado por alguma lei de incentivo.

Alô gravadoras! Lá de cima, Itamar Assumpção deve ficar mais feliz se o seu desejo for realizado.

Para saber mais: http://www.myspace.com/projetosempensarnempensar    

rosimeire santos   

setor de projetos culturais da maso  

BRA salvador/são paulo    

 

 

 

 

A Espanha embalada pelos Orixás

 

Muito já se falou sobre a maneira de ser  do povo brasileiro. A começar por  sua capacidade de criação e superação, transformando adversidades em poesia, delicadeza e sempre ofertando  um sorriso.

 A coreógrafa e  idealizadora do espetáculo Espanha na Bahia, Szely de Nuñez, é um desses exemplos,  concretizou um sonho e  colocpu  em um mesmo palco a dança e a musicalidade  baiana   e espanhola. 

 

  Como me disse um sábio  senhor de andar  vagaroso , em uma manhã de domingo na feira de São Joaquim em Salvador, “pra tudo tem uma ciência”.  O resultado desta experimentação, foi uma espetacular apresentação do Corpo de Dança do Balé  Folclórico do Sesc – BA e bailarinos de dança  flamenca da Companhia Flamenca Szely de Núñez, embalados pela musicalidade com participação de músicos do Olodum, do percussionista português Winga e da  voz marcante do cantor espanhol Jose Fernandez que conduziu os espectadores a uma viagem por nossa  herança cultural africana  juntamente com  a força e a  beleza  da cultura espanhola.

 

Como me disse um sábio  senhor de andar  vagaroso , em uma manhã de domingo na feira de São Joaquim em Salvador, “pra tudo tem uma ciência”.  O resultado desta experimentação, foi uma espetacular apresentação do Corpo de Dança do Balé  Folclórico do Sesc – BA e bailarinos de dança  flamenca da Companhia Flamenca Szely de Núñez, embalados pela musicalidade com participação de músicos maravilhosos, do percussionista português Winga e da  voz marcante do cantor espanhol Jose Fernandez que conduziu  os espectadores a uma viagem por nossa  herança cultural africana  juntamente com  a força e a  beleza  da cultura espanhola.

 

O espetáculo Espanha na Bahia, foi  um projeto patrocinado  pelo Governo da Bahia - Faz Cutlura e Posto Porto Seco de Combustíveis, através das leis de incentivo a cultura do Estado da Bahia - Fazcultura. Mas, infelizmente houve uma única apresentação. Muito pouco para um projeto de tamanha grandeza e qualidade que exigiu meses  de dedicação e  o envolvimento de   diversos  profissionais. Ficou o desejo de quero mais!!!!! 

Para  aqueles que não tiveram a oportunidade de  ver o espetáculo, há sempre  a esperança de uma  remontagem. Fica a dica para   algum mecenas da cultura baiana afinal de contas, temos tantas empresas espanholas hoje na Bahia ….

 

 

daniel maior      

escritor

BRA - salvador 

 

  

Dá pra fazer melhor 

Um dia desses, em uma das turmas do curso de Administração em que ensino, resolvi aplicar uma técnica para estimular a participação ativa dos estudantes. Essa técnica – o método do caso, bastante utilizada em reconhecidas universidades norte-americanas, consiste, em síntese apertada, na leitura de um texto de aproximadamente 15 páginas, que retrata um problema real de determinada empresa e para o qual se busca uma solução. A partir da leitura, são sugeridas três etapas: a) análise individual, b) análise em pequenos grupos e c) discussão aberta com toda a classe. No final das contas, percebe-se como, para todo problema, existem diferentes alternativas de solução – e não uma única “resposta certa”.

 Durante a segunda etapa, ou seja, a discussão em pequenos grupos de três ou quatro pessoas, um dos estudantes, uma mulher de aproximadamente 28, 29 anos de idade, fez um comentário daqueles que fazem a gente contar até dez antes de dar uma (boa) resposta: “Hoje o professor não quer dar aula. Deu esse texto pra gente ler, depois discutir…e só!”.

Acabei explicando, gentilmente, a diferença entre os principais métodos de ensino, suas aplicações e principais vantagens e desvantagens. Entretanto, o que me marcou mesmo foi a reflexão sobre esse tipo de atitude – ou ausência dela. Quantas vezes nos sentamos, passivos, e esperamos que o professor vá pra frente da classe e “faça sua parte”? Quantas vezes abrimos mão da responsabilidade pelo nosso próprio resultado, atribuindo ao professor, ao colega de trabalho, ao chefe, aos pais, ao governo, os créditos – ou culpa - pelo nosso desempenho? Em quantas ocasiões nos acomodamos confortavelmente, damos “férias para nossos pés”, e desperdiçamos a oportunidade de aprender, de crescer e de descobrir coisas maravilhosas que apenas aqueles que têm a coragem de levantar e fazer experimentam?

 Prosperar depende de cada um. As barreiras são criações de nossas mentes, cuja existência aceitamos passivamente – afinal, por que outros não as enxergam? Todos os dias temos infinitas oportunidades de fazer melhor, fazer diferente, experimentar, errar, acertar, aprender, errar de novo, crescer, vencer, celebrar. E a diferença entre o sonhador de fim de semana e o realizador do dia a dia está na decisão consciente de tirar a bunda do sofá e agir. Agora.

 

pietra diwan

historiadora  

EUA - miami      

 

Brasileiros de Miami, uni-vos

Posso apostar que todo o brasileiro que já morou fora do país teve que encarar dois sentimentos durante o tempo afastado das terras tupi-guarani: a incompreensão estrangeira sobre a diversidade do Brasil e o orgulho nacionalista aflorado em momentos inexplicáveis. Apesar de que algumas pessoas, durante suas viagens repetem incessantemente: “no Brasil não é assim…. que maravilha…. isso é que é primeiro mundo!”

Mas quantas vezes em terra estranha, você, quando se apresentou como brasileiro ou brasileira, não foi obrigado a engolir o “outro” dizendo de maneira maliciosa: “Brasil…. Samba! Carnaval! Rio de Janeiro! Ronaldinho! Caipirinha! Feijoada! Bossa Nova!” É nesse momento que ser brasileiro adquire significado. Oras bolas, nós não somos só isso! Esses clichês são apenas uma pequena parte da nossa cultura e um milésio da nossa profundidade como nação. 

Eu sou brasileira e é claro que gosto do nosso carnaval, do futebol, da feijoada e da Bossa Nova. Mas eu gosto e desgosto também de muitas outras coisas do Brasil. Sou apaixonada pelo meu país. Por isso fico ressentida com nossa pouca expressividade em Miami, em meio à uma comunidade hispânica gigantesca mas não menos importante. O certo é que “nem toda a brasileira é bunda”, como disse Rita Lee e, é muito difícil fugir do estereótipo.

Em Miami, o Brasil é clichê. O brasileiro é alienado, classe média e gastador quando em Miami. Brasil, o país “sortudo” que tem Lula, o presidente moderado e semi-esquerda.

O Brasil aqui, significa também grandes negócios. De acordo com dados da Câmera de Comércio Brasil-Estados Unidos, o Brasil é o segundo país que mais exporta para a Flórida, perdendo para o Japão. São peças de aviação, madeira, equipamento eletrônico, maquinaria industrial, sapatos, café, material combustível e sucos de frutas, todos “made in Brasil”. E o Brasil é o país para onde a Flórida mais exporta com o dobro do volume do segundo lugar da lista, a Venezuela.

Meu orgulho brazuca, muito além do Zé Carioca fica à flor da pele todas as vezes que tenho que comprar picanha para fazer churrasco numa “carniceria” argentina. Quando tenho vontade de comer coxinha e acabo comendo alguma iguaria hispânica como arepas, empanadas ou tequeños. A questão não é consumir à diversidade latino-americana, mas sim o Brasil que está disponível em Miami. Tomo guaraná, como feijão, posso fazer brigadeiro quando quiser. Mas, e o nosso orgulho, nossa bandeira, nossa raça? Por isso convoco, “brasileiros de Miami, uni-vos!”, não para tagarelar sobre o american dream mas para lembrar e exaltar que há um coração verde-amarelo-azul-e-branco estampado em nossas histórias.

 

 

patricia menezes

historiadora

BRA - fortaleza

 

 

MOSCA

 

É improvável que não se veja uma mosca quando se passa pelas ruas centrais de Fortaleza. Ou ainda que se veja alguns porcos alados, monstros, corpos humanos mal formados, mutilados ou costurados em panos. São estampas atrevidas de seres bizarros, que misturam elementos de naturezas diferentes e chamam a atenção dos passantes para um jeito não autorizado de se relacionar com o ambiente urbano. Ou ainda sugerem que os muros da cidade, além de dividir, servem de pergaminhos para mensagens caóticas de múltiplos sentidos. E assim, os muros-fronteiras transformam-se em portas escancaradas entre os diferentes mundos sobrepostos que habitat metropolitano produz.

 

Aqui e acolá, as figuras de cores berrantes e quentes são entrecortadas por frases de efeito. “Espelho, espelho meu: alguém no mundo reflete como eu?”. As inscrições querem chocar, desviar a atenção dos motoristas. “Bem-aventurados os loucos, pois eles herdarão o céu”.

 

Arte em espaço público? Explosão de expressão daqueles que já não se diferenciam da paisagem da cidade, assim como os desajustados que  dormem invisíveis debaixo de marquises?

 

São tão multiformes e tão promíscuos, que é difícil dizer qual o sentido dos desenhos que tatuam as paredes de Fortaleza.

 

O certo é que eles podem ser apropriados nos códigos bem aceitos da Arte, dentro dos limites de transgressão que ela trata pouco a pouco de afastar. Os grafites de Fortaleza ganharam o notório nome de “Intervenções Urbanas”. Ficaram tão cult, que a mosca, que perturba e regurgita nos cruzamentos de Fortaleza, entrou no espaço lícito e respeitadíssimo do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na exposição “Entregue às Moscas”, aberta ao público desde 15 de fevereiro último.

 

A exposição é tão paradoxal quanto os seres que ela apresenta.

 

Para começar a subverter a mecânica de fruição da arte, os autores são desconhecidos. Sabe-se que vêm do Curso de Artes Plásticas do Cefet – Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará. Têm formação acadêmica em nível superior. É possível que tenham acesso aos lugares mais convencionais da expressão… Sabe-se também que se nomeiam “Grupo Acidum” e que, a despeito de serem os porta-vozes dos diferentes e dos solitários dissonantes da orquestra urbana, preferem se manter no anonimato do coletivo… Num quase escracho às políticas públicas de fomento às Artes, foram selecionados no Edital das Artes da FUNCET – repartição da prefeitura de Fortaleza dedicada à cultura – para realizar a exposição. E ganharam publicidade nos jornais, usando, ao invés da marginalidade do spray, a linguagem bem comportada das redações.

 

Depois, o disparate do espaço. Apesar de ocupar todas as salas do andar principal do Museu, a exposição transcende, como que numa volta à sua origem, aos muros comuns do entorno. Moscas peludas e pretas começam a aparecer vez por outra nas paredes do Centro Dragão do Mar, só que, desta vez, com a autorização e os aplausos dos diretores. Estranho… Já não incomodam mais. Ao contrário: fazem parte da mais concorrida programação de cultura da cidade.

 

Os materiais e técnicas da exposição também são misturas. Há fotografias, vídeos, grafite, stencil, panos e até um automóvel cheio de inscrições. Luzes e corredores escuros criam um ambiente de uma fantasia cruel, quase que um universo paralelo que se esconde nos olhos vazadas de meninos de sinal, empunhando malabares pitorescos.

 

“Entregue às Moscas” encontrou lugar. Tanto nas ruas como no Museu. É a história dos caminhos da expressão. Por isso, sua validade. Ocupa as ruas como manifesto e não como propaganda.

 

 

salete maso

fotógrafa

BRA - salvador


recordações da ilha

nossa viagem começou às 9 h. engraçado todas as vezes  que entro no salão de espera do ferry-boat lembro de quando eu era criança e voltava para a ilha de itaparica depois do final de semana com a minha mãe (sim, meus finais de semana eu passava em salvador, pois itaparica era onde eu morava e estudava).

ver as pessoas sentadas aguardando os portões se abrirem, me fez rir, pois lembrei de quando todos saiam correndo pela passarela para pegar o barco e assegurar um bom lugar para sentar durante os 45 min. de travessia salvador/bom despacho. a mesma euforia e inquietação me pegou nestes segundos de espera e quando os portões se abriram, aquela vontade de correr alguns metros até chegar na embarcação estava inclinando o meu corpo e dizendo, “corra, corra …”  (claro que desta vez eu não corri…)

observar a baía de todos os santos se tornando menor a cada minuto ao mesmo tempo que a vista da ilha se aproxima cada vez mais… me traz de volta as memórias de quando eu era criança na ilha: “menina, desce desta árvore para você não cair….” ; “saia da rua salete, já está na hora de tomar banho para tomar café” (às 5:00h da tarde), ; “ olha eu vou dizer que você estava correndo de picula na rua”  - estas vozes ressoaram nos meus ouvidos neste momento e junto vieram as lembranças das brincadeiras na rua de paralelepípedo, de quando eu subia no pé de carambola que ficava atras da Igreja principal de Itaparica e o medo que eu sentia do padre chegar e pegar todo mundo “roubando” a carambola lá no fundo, das brincadeiras de esconde-esconde, de picula, do quebra-queixo vendido na pracinha todo final de tarde, do medo de chegar em casa com a farda da escola toda suja porque estava correndo picula (conhecido também como pega-pega) na escola com os meus colegas mais uma vez… era uma festa.

na verdade, chego hoje à conclusão de que eu era uma moleca traquina – e talvez por isto, as mães das minhas coleguinhas da mesma rua não deixavam elas brincarem fora da porta de casa, para evitar que as filhas “tomassem o mesmo rumo” afinal de contas, eram todas comportadinhas, padronizadas, empacotadinhas com seus vestidinhos com rendinha que a mãe acabara de costurar na máquina. Eu até tinha vestidos costurados na máquina também, mas eu só usava nas ocasiões especiais – festas de aniversário, dia de missa (sempre aos domingos às 17h) – nestes dias me sentia meio robotizada, toda esquisitinha - mas eu não deixava por menos, quando dava para escapar das atenções dos adultos que me acompanhavam, voltava para casa sempre com algum rasgado, sujo, manchado…  e levava bronca por isto.

 sim gente, uma traquina eu era,  e me faz pensar o quanto eu era feliz e não sabia…

a buzina do ferry-boat avisa que já chegamos e está na hora descer. guardei minha caixinha de lembranças e segui caminho.

já dentro do ônibus que nos levaria a nazare das farinhas, começou a chover o que nos deixou apreensivas (eu e as minhas companheiras de trabalho - rosi e norma ) , pois acabaria por tornar a nossa ida para conhecer a feira de caxixis-  famosa pela diversidade de objetos de artesanato que oferece - um fiasco.

observar a paisagem ao fundo, como um backgroud, na janela cheia de gotículas d’agua da chuva que teima em pegar carona na janela embaçada, me passa a sensação de nostalgia. Parece ser possível congelar a imagem e emoldurá-la como uma pintura em guache. logo os meus dedos entraram em ação, na tentiva de congelar as imagens que passavam na janela na mesma velocidade do ônibus em movimento.

chegamos em nazare às 12h. a cidade oferece ônibus, moto-táxi e táxi regular que saem da rodoviária em direção à feira de caxixis, no centro antigo da cidade. para aqueles que preferem pernoitar, os hotéis são bem aconchegantes e próximos da feira de artesanato que fomos conhecer.

mesmo com o tempo chuvoso, ainda deu para fazer fotos interessantes e mostrar algumas das diversidades existentes. tinha de tudo, bonequinhas feitas de barro, burricos para decoração, roupa de renda, toalhas, comida típica…

a chuva aumentou e decidimos procurar um restaurante para almoçar enquanto a chuva diminuia. escolhemos comer carne do sol com pirão de leite, e como tinha uma paulista com a gente (que não gosta muito de apreciar as comidas diferentes da cozinha mais tradicional), pedimostambém uma salada e feijão. o restaurante era localizado numa antiga estação de trem da cidade e estava cheio de turistas estrangeiros.

pagamos a conta e voltamos para a feira para fazer mais fotos, comprar alguma lembrancinha para a família e nos despedirmos da cidade.

já que estava em um dia de recordações, resolvi comprar maçã do amor, que estava linda e tinha acabado de ser feita. não me lembrava que era tão dura e difícil de comer, joguei metade fora pois não estava com muita paciência para quebrar o caramelo colorido que envolvia a fruta. comprei um jarrinho como lembrança da cidade e seguimos caminho de retorno para bom despacho e pegar o ferry-boat para salvador.

na verdade, a Ilha é bem extensa e existe uma conexão que liga o recôncavo baiano à ilha. itaparica, é uma parte da Ilha que fica para outra direção. para chegar em nazaré das farinhas, para quem vai de barco, passa pela entrada de itaparica - daí as minhas recordações de criança.

desta vez não visitamos outros locais da ilha, quem sabe em outra edição do tabuleiro cultural eu conte as diferenças da itaparica das minhas lembranças para a Itaparica de hoje? até a próxima.

 

 

 

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o Tabuleiro Cultural foi pensando como um espaço onde pudéssemos conversar sobre coisas cotidianas de nossas vidas, das cidades em que vivemos, da experiência de  pessoas, com as mais diversas  formações e radicadas em cidades distintas,  informar e ser informado do que ocorre em nosso país e na vida daqueles  brasileiros que vivem fora  do Brasil, ou estrangeiros  que  aqui vivem ou, simplesmente, guardam em suas lembranças  belas recordações  que os fizeram aceitar nosso convite e contribuir com nossa revista virtual. 

pretendemos continuar  a viagem iniciada por mário de andrade e sair mostrando a diversidade desta  terra, e de sua gente que guarda a sabedoria  e a riqueza de suas tradicões.  

 a proposta é escrever com simplicidade temas como arte, viagens, curiosidades, tecnologia, cinema, teatro, cotidiano, enfim , todas as questões que estão presentes na vida  de cada um de nós.

boa leitura!  e aproveite para nos brindar com seus comentários. 

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