patricia menezes
historiadora
BRA – fortaleza
pessoa persona
No final do ano passado, Ghil e eu estávamos enredados num complexo ensaio que Michel de Certeau havia publicado na Revista do Patrimônio do IPHAN. Colegas num curso de pós-graduação da Universidade Federal do Ceará, tínhamos em comum as indagações sobre a cidade e as formas de viver em Fortaleza por volta dos anos de 1950. Eu, preocupada com fluxos e movimentos urbanos e ele, ator, percorrendo os caminhos do maracatu no carnaval fortalezense.
Foi por isso que Ghil e eu nos aventuramos sobre Certeau e o seu Andando na Cidade. Descobri pouco depois, que o texto era uma das partes para a construção do pensamento de Certeau sbre as práticas de espaço nas difusas Invenções do Cotidiano. Tratava das criações da cidade, sobrepostas e fugazes – tal como num palimpsesto – que se re-desenham a cada caminho percorrido pelos andantes ao rés-do-chão.
No dia marcado, Ghil começou nossa apresentação com uma poesia. Ou melhor: com uma quase adaptação cênica um poema, de Fernando Pessoa, sobre os movimentos e habitués das ruas lisboetas no começo do século passado. Foi o suficiente para colorir o sério ambiente de intelectuais. E ain- da, trouxe algo muito mais próximo da delicadeza e do indizível que Certeau tentou traduzir em seu ensaio. Foi uma linda surpresa.
Ghil é um apaixonado por Fernando Pessoa e conse- gue enxergá-lo nas representações humanas que cuidam do plural, da alteridade ou de qualquer indício de heteronimato. Viu Pessoa na cidade, viu Pessoa no maracatu, viu Pessoa nos ritus do Teatro.
Muito antes da sua ousadia na sala de aula, Ghil já tinha criado e produzido o espetáculo Pessoa Persona. Um monólogo de poesias que se traduzem em gestos, luzes e formas múltiplas. Acho que, desde o início, foi a capaci-dade de metamorfose de Fernando Pessoa, igual a máscara que faz a plasticidade do ator, que encantou Ghil. Ele estudou as expressões, as palavras, os tons de voz e os acentos para pronúncias impecáveis e cheias de tônicas. Depois, escolheu com cuidado textos tanto do ortônimo como de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Campos e Bernardo Soares e montou um delicado jogo de teatro ritual.
Quando eu ainda não co-nhecia Ghil, Pessoa Persona ficou um bom tempo em cartaz nos teatros de Fortaleza. Não fui ver. Sabia dele apenas pelas notas de jornais. As críticas eram sempre favoráveis, porque o espetáculo parecia resgatar o essencial do teatro, sem supérfluos, mas mantendo seu caráter ritualístico e ficcional.
Depois, Pessoa Persona viajou à Portugal, como legítimo representante do cearense Teatro Radical – de raiz. A bagagem seguiu leve, com os poucos adereços do espetáculo e o natural desprendimento de Ghil. Mas as sua interrogações pesavam: Mas quem é Fernando Pessoa? O que ou quem são os heterônimos de Fernando Pessoa? O que representa esse jogo de esconde-esconde poético a que nos conduz a sua obra? Um poeta-xamã empossado de diversos eus?
Como era de se esperar, não foi na terra de Fernando Pessoa que Ghil fechou as cortinas de suas relações com o poeta. Penso até que ele voltou de Portugal ainda mais envolvido no paradoxo de Fernando Pessoa. E ainda mais ávido para percorrer seus mistérios. Tanto que resolveu transportá-lo para a sala de aula.
Em 05 de março, Ghil reapresentou Pessoa Persona no palco do famosíssimo Teatro José de Alencar, em Fortaleza, nas comemorações do Mês do Teatro e do Circo.
Vale a pena.











