são paulo – cidade extática
(um pouco além da capital da solidão)
Quem conhece a cidade sabe, bem ou mal, que o título acima é pertinente. Quem não a conhece poderá pensar que o uso do termo solidão direciona-se para o seu sentido puro, negativo, próximo do estado de depressão. Mas no entendimento de quem lhes escreve, São Paulo abre caminho para uma “solidão” cujo conteúdo deve ser balizado entre a positividade do individualismo (que é também extremo? que é também egoísta?), de um lado, e a pertinência da liberdade (nem sempre regrada? nem sempre calma?), de outro.
“Esta é uma caracterização nada exultante”, pode-se pensar, em face das perguntas entre parênteses. Todavia, também nem é qualquer coisa de triste; é, sim, extática (obtusa, talvez). E que isso seja uma caracterização nada digna de refutação. Tenho pra mim que é pelo avesso da concordância que se permite aclarar as loucuras (nas palavras do poeta Manoel de Barros), que é pelo reflexo de uma imagem da cidade escovada a contrapelo que se chega a entendê-la, travando conhecimento de suas curvas, da variedade de seus habitantes, do teor de suas mazelas e do sempre contumaz e inusitado de sua beatitude – esta, por sua vez, muito concreta e megalomaníaca.
Aproximo do meu argumento com vagar. Em seu livro de 2003, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo caracteriza a cidade de São Paulo na referência de duas canções: “Trem das onze”, de Adoniran Barbosa, e “Sampa”, de Caetano Veloso. Ambas foram eleitas pela população – mediante concurso no ano de 2000, realizado pelo SPTV (telejornal local da Rede Globo) – como representativas do que é a cidade. Para cada uma Toledo oferece uma síntese, de modo a avançar sua interpretação: a primeira define um “sentimento de perturbação”; a segunda define uma “impotência diante de um quadro opressivo” [o contexto da cidade]. São Paulo surge como “o primado da impertinência e da mecânica impessoalidade”, uma “cidade-mutação” (afigurada em “Sampa”) e “uma cidade-máquina” (o intrépido “Trem das onze”). Ela provoca pasmo e susto, em razão de seu gigantismo, em decorrência de ser avaliada como um labirinto urbano.
Fruto da ação humana, a cidade de São Paulo resulta de encontros díspares, muitos dos quais não datam mais que 150 anos, de movimentos econômicos e sociais acelerados (quando antes não existiam ou eram morosos) e de uma formação natural que a situa ladeada pela Serra do Mar e a densa Mata Atlântica, na lembrança de ser uma fortaleza. Se o sentido primeiro está para a perturbação, para a estranheza e para o opressivo – daí a experiência de solidão que a cidade enseja -, há que se fazer notar, junto com Toledo, que São Paulo tornou-se também atrativa, divertida e sedutora, ao oferecer sua grandiosidade, seus recantos desconhecidos e sua afirmação de promesse de bonheur [promessa de felicidade], quer seja por tudo o que reúne para lazer e abertura de conhecimentos, quer seja por tudo o que dispõe para um enriquecimento [sempre duvidoso] financeiro.
Se a cidade de São Paulo é esse emaranhado em profusão de qualificações e modos de ser, se ela não se permite um sentido unívoco de caracterização, é porque sua dinâmica cotidiana responde a anseios variados de quem nela vive, e quem vive em São Paulo alimenta-a em reciprocidade ao que dela espera e em encaminhamento ao que ela pode vir a ser. Esta é a práxis que instaura a realidade.
Atualmente, entre elementos diversos, nós, paulistanos, podemos perceber duas condições que aparecem como detentoras de salvaguarda a esse movimento duplo, aludido acima, e que são o individualismo e a liberdade. Comecei este texto balizando a solidão nessas figuras ilustrativas. O que há de positivo no individualismo paulistano é a possibilidade de ser um, ou mais um, entre muitos. Não digo “mais um número”, pejorativamente, e não é tanto uma alusão à invisibilidade que a cidade oferece, em meio a quase 20 milhões de pessoas que aqui vivem e se desconhecem. Penso, de fato, no nível do individual relativo ao espaço para a experiência (ética) da subjetividade, de construção de si e realização de desejos, sonhos e encantos que animam a existência. Se estes serão efetivados, conquistados, alcançados, e de que maneira e por quais meios, isso já é outra coisa. O importante é não perder de vista essa positividade. O mesmo direciona-se para a pertinência da liberdade. Há quem pense que liberdade é libertinagem e que, assim, tudo é possível e deva ser aceito; muito pelo contrário, a idéia de liberdade trazida aqui é aquela que está no registro do relacionamento e do respeito mútuo – liberdade que se concretiza com o outro. Temos liberdades tão imperceptíveis que tanto podem passar despercebidas como tais, quanto também podem ser objeto de disputas que se direcionam para a proibição sem despertar animosidade. E cabe dizer que aquelas interrogações que aventei no começo acerca dessas duas figuras são para marcar que não deixo de lado a corruptela de seus conteúdos.
Chego, assim, ao que vejo e vivo de extático nesta Sampa desvairada, entre encantamentos e perturbações que preenchem nossos dias – ao largo e mais além do sentido de capital da solidão. O intento é tornar presente e próximo, em forma de crônicas, comentários e discussão neste espaço do Tabuleiro Cultural, as percepções e os acontecimentos que envolvem o compromisso do individual e as centelhas da liberdade. Um espaço que seja de troca, em que a tessitura da escrita se constitua em celebração crítica do tempo presente. Falar de São Paulo é, portanto, ato que constitui grande responsabilidade e imenso prazer.
Na função de adjetivo, extático remete a “caído em êxtase; causado por êxtase ou que envolve êxtase; encantado, enlevado, maravilhado”; já em seu sentido etimológico, do grego ekstatikós, remete àquilo que “causa perturbação mental’.
[1] TOLEDO, Roberto Pompeu de. A capital da solidão – uma história de São Paulo das origens a 1900. São Paulo: Objetiva, 2003. O belo texto a que faço menção encontra-se disponível em: http://www.vivaocentro.org.br/publicacoes/urbs/urbs45.pdf









