“mosca” - por patricia menezes
10 Abril, 2008 de tabuleirocultural
patricia menezes
historiadora
BRA - fortaleza
MOSCA
É improvável que não se veja uma mosca quando se passa pelas ruas centrais de Fortaleza. Ou ainda que se veja alguns porcos alados, monstros, corpos humanos mal formados, mutilados ou costurados em panos. São estampas atrevidas de seres bizarros, que misturam elementos de naturezas diferentes e chamam a atenção dos passantes para um jeito não autorizado de se relacionar com o ambiente urbano. Ou ainda sugerem que os muros da cidade, além de dividir, servem de pergaminhos para mensagens caóticas de múltiplos sentidos. E assim, os muros-fronteiras transformam-se em portas escancaradas entre os diferentes mundos sobrepostos que habitat metropolitano produz.
Aqui e acolá, as figuras de cores berrantes e quentes são entrecortadas por frases de efeito. “Espelho, espelho meu: alguém no mundo reflete como eu?”. As inscrições querem chocar, desviar a atenção dos motoristas. “Bem-aventurados os loucos, pois eles herdarão o céu”.
Arte em espaço público? Explosão de expressão daqueles que já não se diferenciam da paisagem da cidade, assim como os desajustados que dormem invisíveis debaixo de marquises?
São tão multiformes e tão promíscuos, que é difícil dizer qual o sentido dos desenhos que tatuam as paredes de Fortaleza.
O certo é que eles podem ser apropriados nos códigos bem aceitos da Arte, dentro dos limites de transgressão que ela trata pouco a pouco de afastar. Os grafites de Fortaleza ganharam o notório nome de “Intervenções Urbanas”. Ficaram tão cult, que a mosca, que perturba e regurgita nos cruzamentos de Fortaleza, entrou no espaço lícito e respeitadíssimo do Museu de Arte Contemporânea do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, na exposição “Entregue às Moscas”, aberta ao público desde 15 de fevereiro último.
A exposição é tão paradoxal quanto os seres que ela apresenta.
Para começar a subverter a mecânica de fruição da arte, os autores são desconhecidos. Sabe-se que vêm do Curso de Artes Plásticas do Cefet – Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará. Têm formação acadêmica em nível superior. É possível que tenham acesso aos lugares mais convencionais da expressão… Sabe-se também que se nomeiam “Grupo Acidum” e que, a despeito de serem os porta-vozes dos diferentes e dos solitários dissonantes da orquestra urbana, preferem se manter no anonimato do coletivo… Num quase escracho às políticas públicas de fomento às Artes, foram selecionados no Edital das Artes da FUNCET – repartição da prefeitura de Fortaleza dedicada à cultura – para realizar a exposição. E ganharam publicidade nos jornais, usando, ao invés da marginalidade do spray, a linguagem bem comportada das redações.
Depois, o disparate do espaço. Apesar de ocupar todas as salas do andar principal do Museu, a exposição transcende, como que numa volta à sua origem, aos muros comuns do entorno. Moscas peludas e pretas começam a aparecer vez por outra nas paredes do Centro Dragão do Mar, só que, desta vez, com a autorização e os aplausos dos diretores. Estranho… Já não incomodam mais. Ao contrário: fazem parte da mais concorrida programação de cultura da cidade.
Os materiais e técnicas da exposição também são misturas. Há fotografias, vídeos, grafite, stencil, panos e até um automóvel cheio de inscrições. Luzes e corredores escuros criam um ambiente de uma fantasia cruel, quase que um universo paralelo que se esconde nos olhos vazadas de meninos de sinal, empunhando malabares pitorescos.
“Entregue às Moscas” encontrou lugar. Tanto nas ruas como no Museu. É a história dos caminhos da expressão. Por isso, sua validade. Ocupa as ruas como manifesto e não como propaganda.











