Pôr do Sol - por Maurício Trindade
10 Abril, 2008 de tabuleirocultural
mauricio trindade
sociólogo - GEDES SESC S.P.
BRA - são paulo
Pôr do Sol
Durante toda aquela tarde o vento soprou musicalmente em direção ao mar. Era começo de verão e o sol hesitava entre as nuvens, como a sugerir uma brincadeira de esconde-esconde ante o nosso olhar de delicada humanidade, que precisa de seus raios multicores para sobreviver. Mas o calor se fazia presente, permitindo os trajes de banho - e a água do mar deliciava. Ao longo das duas mesas colocadas na areia da praia avolumavam-se várias latinhas de cerveja, empilhadas em triângulo-equilátero; o vento zunia ao perpassá-las, confundia-se com as vozes de todos nós ali e formava uma polifonia de sons lancinantes.
A ocasião que permitiu reunir os amigos em frente ao mar era simples, muito simples. Tratava-se até de uma mera informalidade face ao mundo tal qual ele é, algo não tão costumeiro mas plenamente significativo como um rito de passagem. Comemorávamos a razão de se ter algo para comemorar. Isso mesmo. Pois é sempre assim, não é?, quando os amigos se encontram e decidem, todos, inexplicavelmente, ir para a praia, beber, conversar, rir, passar o tempo? Qual signo da contingência traduz o acerto na escolha de um momento? Sim, estávamos felizes; sim, era uma comunhão de todos com todos, a favor de todos e para todos entre nós. Porque o domingo permitia, a cidade permitia, os ânimos permitiam - e eis a praia, o sol, o vento e o mar!
Assim os 10 amigos; casais formados sem ortodoxia, olhares que se cruzam em foco convexo num caos cosmológico. Falava-se de tudo no rumor das horas e no vai-e-vém de latinhas esvaziadas: “Aeh, manda mais uma aqui!”; “Ah, cervejas… prefiro Norteña, Patricia ou Oráculo, na garrafa, geladinha…”; “Como está seu filho? Nossa, ele parece ser seu irmão…”; “Isso, foi naquele dia mesmo, quando o Lula fez um pronunciamento…”; “Mas que coisa, não adianta repisar o assunto e acrescentar eiras e beiras…”; “Caramba, não sabia que o João, primo da sua tia e famoso como é, é amigo da mãe da minha namorada… Que mundo ervilha…”.
A vacuidade em abismos com que se entrava e saia de assuntos permitia poucas pausas para os momentos de paralisação fotográfica. Poucas, e algumas. E é foto em união, desorganização, junção bilateral, amontoado pluri-unívoco - e o desejo de uma foto do pôr do sol, que já se anunciava. Dentre todos, ela quis tirar a foto como recordação. Ele se prontificou a ajudar. “Ah, é preciso esperar a formação de uma linha de raios e…”. E ela: “Não, não - basta o momento presente, e só…”
Click.
Os dois olharam a foto no pequeno visor da máquina digital e ficaram felizes.
Gosto de retomar essas coisas. Não é preciso ser um iniciado em Albert Camus e no avesso e direito da vida para saber que é assim. O tempo passa e somos nós que passamos. Não gosto de ver as folhas caírem das árvores, assim como entristeço não sei por quê, e tanto, justo quando surge mais um ano e as estações recomeçam. Isso dura um pouco; no entanto, dura um pouco como o vestígio litigioso de um raio de lucidez que ecoa na íris dos olhos. Naquele dia, naquela tarde, na conversa entre os amigos - tudo se justificou. O sorriso em minha direção que vinha dela e aquele lance de olhares que pendia para o meu corpo buscavam a genealogia da minha alma. Eu olhava de volta, intencionalmente, e desejava enaltecer e completar o olhar que me buscava.
Sei que foi por isso que durante toda aquela tarde o vento soprou musicalmente em direção ao mar…













Voce e o mesmo Mauricio Trindade de Londrina?