“recordações da ilha” - por salete maso
10 Abril, 2008 de tabuleirocultural
salete maso
fotógrafa
BRA - salvador
recordações da ilha
nossa viagem começou às 9 h. engraçado todas as vezes que entro no salão de espera do ferry-boat lembro de quando eu era criança e voltava para a ilha de itaparica depois do final de semana com a minha mãe (sim, meus finais de semana eu passava em salvador, pois itaparica era onde eu morava e estudava).
ver as pessoas sentadas aguardando os portões se abrirem, me fez rir, pois lembrei de quando todos saiam correndo pela passarela para pegar o barco e assegurar um bom lugar para sentar durante os 45 min. de travessia salvador/bom despacho. a mesma euforia e inquietação me pegou nestes segundos de espera e quando os portões se abriram, aquela vontade de correr alguns metros até chegar na embarcação estava inclinando o meu corpo e dizendo, “corra, corra …” (claro que desta vez eu não corri…)
observar a baía de todos os santos se tornando menor a cada minuto ao mesmo tempo que a vista da ilha se aproxima cada vez mais… me traz de volta as memórias de quando eu era criança na ilha: “menina, desce desta árvore para você não cair….” ; “saia da rua salete, já está na hora de tomar banho para tomar café” (às 5:00h da tarde), ; “ olha eu vou dizer que você estava correndo de picula na rua” - estas vozes ressoaram nos meus ouvidos neste momento e junto vieram as lembranças das brincadeiras na rua de paralelepípedo, de quando eu subia no pé de carambola que ficava atras da Igreja principal de Itaparica e o medo que eu sentia do padre chegar e pegar todo mundo “roubando” a carambola lá no fundo, das brincadeiras de esconde-esconde, de picula, do quebra-queixo vendido na pracinha todo final de tarde, do medo de chegar em casa com a farda da escola toda suja porque estava correndo picula (conhecido também como pega-pega) na escola com os meus colegas mais uma vez… era uma festa.
na verdade, chego hoje à conclusão de que eu era uma moleca traquina – e talvez por isto, as mães das minhas coleguinhas da mesma rua não deixavam elas brincarem fora da porta de casa, para evitar que as filhas “tomassem o mesmo rumo” afinal de contas, eram todas comportadinhas, padronizadas, empacotadinhas com seus vestidinhos com rendinha que a mãe acabara de costurar na máquina. Eu até tinha vestidos costurados na máquina também, mas eu só usava nas ocasiões especiais – festas de aniversário, dia de missa (sempre aos domingos às 17h) – nestes dias me sentia meio robotizada, toda esquisitinha - mas eu não deixava por menos, quando dava para escapar das atenções dos adultos que me acompanhavam, voltava para casa sempre com algum rasgado, sujo, manchado… e levava bronca por isto.
sim gente, uma traquina eu era, e me faz pensar o quanto eu era feliz e não sabia…
a buzina do ferry-boat avisa que já chegamos e está na hora descer. guardei minha caixinha de lembranças e segui caminho.
já dentro do ônibus que nos levaria a nazare das farinhas, começou a chover o que nos deixou apreensivas (eu e as minhas companheiras de trabalho - rosi e norma ) , pois acabaria por tornar a nossa ida para conhecer a feira de caxixis- famosa pela diversidade de objetos de artesanato que oferece - um fiasco.
observar a paisagem ao fundo, como um backgroud, na janela cheia de gotículas d’agua da chuva que teima em pegar carona na janela embaçada, me passa a sensação de nostalgia. Parece ser possível congelar a imagem e emoldurá-la como uma pintura em guache. logo os meus dedos entraram em ação, na tentiva de congelar as imagens que passavam na janela na mesma velocidade do ônibus em movimento.
chegamos em nazare às 12h. a cidade oferece ônibus, moto-táxi e táxi regular que saem da rodoviária em direção à feira de caxixis, no centro antigo da cidade. para aqueles que preferem pernoitar, os hotéis são bem aconchegantes e próximos da feira de artesanato que fomos conhecer.
mesmo com o tempo chuvoso, ainda deu para fazer fotos interessantes e mostrar algumas das diversidades existentes. tinha de tudo, bonequinhas feitas de barro, burricos para decoração, roupa de renda, toalhas, comida típica…
a chuva aumentou e decidimos procurar um restaurante para almoçar enquanto a chuva diminuia. escolhemos comer carne do sol com pirão de leite, e como tinha uma paulista com a gente (que não gosta muito de apreciar as comidas diferentes da cozinha mais tradicional), pedimostambém uma salada e feijão. o restaurante era localizado numa antiga estação de trem da cidade e estava cheio de turistas estrangeiros.
pagamos a conta e voltamos para a feira para fazer mais fotos, comprar alguma lembrancinha para a família e nos despedirmos da cidade.
já que estava em um dia de recordações, resolvi comprar maçã do amor, que estava linda e tinha acabado de ser feita. não me lembrava que era tão dura e difícil de comer, joguei metade fora pois não estava com muita paciência para quebrar o caramelo colorido que envolvia a fruta. comprei um jarrinho como lembrança da cidade e seguimos caminho de retorno para bom despacho e pegar o ferry-boat para salvador.
na verdade, a Ilha é bem extensa e existe uma conexão que liga o recôncavo baiano à ilha. itaparica, é uma parte da Ilha que fica para outra direção. para chegar em nazaré das farinhas, para quem vai de barco, passa pela entrada de itaparica - daí as minhas recordações de criança.
desta vez não visitamos outros locais da ilha, quem sabe em outra edição do tabuleiro cultural eu conte as diferenças da itaparica das minhas lembranças para a Itaparica de hoje? até a próxima.










