mauricio trindade
sociólogo - GEDES SESC S.P.
BRA – são paulo
“em defesa da cultura”
A palavra cultura, tanto no campo acadêmico quanto na vida cotidiana, é complexa e, por assim dizer, polissêmica; realidade que promove há tempos, para o bem e para o mal, uma gama tão ampla de usos e diferenciações que a sua conceituação encontra-se cada vez mais permeada de questões. Não por acaso, Terry Eagleton, pensador inglês da área de literatura, manifesta insatisfação quanto à dualidade nela presente (o significado antropológico amplo e o sentido estético rígido), chegando mesmo a afirmar que cultura é um dos dois ou três termos para os quais há maior dificuldade de consenso no âmbito das Ciências Humanas[1].
Já em voga no século XV, seu sentido etimológico – do latim culturae, significando ação, processo ou efeito de cuidar, tratar, venerar (física ou moralmente) – remete a um ato que deve ser duradouro, atencioso, sempre reposto e renovado; ato que é percebido como essencial para a consecução de um resultado que se almeja. Assim como a sua base elementar deixa manifesta, no decorrer do século XX até hoje a palavra cultura vem sendo utilizada tanto para descrever todos os aspectos característicos de uma forma de vida particular como também para denotar somente o sistema de valores (políticos, religiosos, sociais) nela implícitos[2]. O estudo da cultura no primeiro sentido é comumente realizado por pesquisadores no campo da História, Antropologia e Sociologia, ao passo que no segundo sentido são as áreas de Filosofia, Filologia e derivadas (como, por exemplo, os Estudos Culturais[3] no mundo anglo-saxônico) que se destacam. O que não excetua, é claro, a existência de estudos plurais, inter/trans-disciplinares, cada vez mais constantes.
É preciso ressalvar, portanto, que está presente nessas duas posturas a idéia de que a cultura é um agente causal, sendo diretamente responsável pelo processo de humanização e, correspondentemente, pelo processo civilizador (Norbert Elias) e suas adaptações – que podemos designar de sociogênese e psicogênese -, introduzidas por meios que são absolutamente humanos e, ainda, modeladores da condição humana. Ou seja, em sintonia com o argumento do antropólogo Clifford Geertz a respeito do termo, na história da humanidade o fator preponderante para a nossa constituição psíquica e genética deveu-se às mudanças que ocorreram não só nos aspectos biológicos, mas nos aspectos (culturais) de transformação de si e do meio para a própria adaptação dos homens, de sorte que um nível (ou níveis) de mudança engendrou o outro, constituindo-se de maneira inter-relacional, respectiva e consecutivamente.
Este sentido precisa estar claro, justamente num momento em que a pesquisa geneticista procura encontrar respostas imanentes para certos modos de ação e emoção humanos. Também é imprescindível esclarecer que cultura vai além do simples conceito ou idéia; antes, é uma “relação de causalidade” entre o homem e a realidade, o que supera a velha dicotomia natureza versus cultura.
O reconhecimento do aspecto de causalidade, então, presenteia-nos com inúmeras interrogações sobre a maneira pela qual a cultura se encontra envolvida no cabedal de constituição de estruturas sociais “modeladoras” e “modeladas”, de objetivação e subjetivação de sujeitos na vida que levamos em sociedade. Tem-se uma dupla face de Janos que revela a sua importância. Porque “modelar”, aqui, é um termo oportuno: toda ação cultural está direta ou indiretamente voltada ao Outro e à realidade, e gera conseqüências a curto, médio e longo prazo. Pode ser a ação lenta e cautelosa do aprendiz, mas também ligeira e eficiente do prestidigitador; pode estar relacionada ao cuidado artístico infinitesimal ou ao toque de descalabro brutal; uma ação às vezes facilmente inapreensível, mas nem por isso inexistente, de busca de (res)significação da realidade ou de manutenção de relações e/ou intencionalidade de transformações; de mostrar acertos e erros que são observados às vezes a priori e costumeiramente a posteriori – enfim, uma ação que não se encerra em si mesma, já que é relacional por excelência: remete à pluralidade de um “eu”, ao “todo” (ou “totalidade”); ao solapamento ou à instauração de um novo signo, um referente, um significante e significado a mais etc.
Acrescente-se que o resultado da “modelação” só é efetivo no devir – na História. Unida à imaginação, a ação cultural ou a cultura em ação (ambas formando quase que uma asserção tautológica, já que a cultura está para a ação assim como o sangue está para o corpo) responde pelos desígnios in-conscientes da humanidade, em estreita sintonia com o mote benjaminiano: “monumentos da cultura / monumentos da barbárie”. Em outros termos, mesmo a partir de épocas de barbárie é necessário e possível fazer surgir o seu indicativo crítico e negativo, agindo e escrevendo a história cultural “a contrapelo”.
Porém, nova ressalva: o reconhecimento dessa dualidade não significa, de um lado, a defesa de uma postura niilista, em que a cultura foge a qualquer prescrição objetiva ou visada analítica, assim como, por outro lado, não se afirma a total determinação de uma ação cultural, cujo corolário é alcançar a essência ou unilateralidade de um resultado idealizado. Trata-se, não obstante, de praticar a crítica e lançar mão da análise dialética, observando o “positivo” e o “negativo” cultural que se escondem sob a fachada que está à mostra, de forma que ao positivo se desbaste o negativo e ao negativo se conflua para o positivo.
Em resumo, a cultura é o equivalente do homem. Como em Mann ist Mann, de Bertolt Brecht: “um homem é um homem: não se trata da fidelidade à sua própria essência, e sim da disposição constante para receber uma nova essência.”[4]
Se esse ponto é procedente e começar a ser observado, os discursos políticos sobre cultura, exercidos por quem quer que seja, precisam deixar manifestos os seus pressupostos e valores; mais do que isso, precisam reconhecer e exercer o caráter relacional, contínuo e prolongado que está presente no sentido forte de cultura, destacado aqui, em contraposição aos discursos de ocasião, sem continuidade, que congelam a ação cultural em atos dispersos e pontuais. Só assim, pensando no que a cultura detém de educacional, teremos sujeitos co-ativos (agindo em parceria, e não em coação), unidos – digamos, à la Emile Durkheim, o sociólogo francês - pela confluência de desiderabilidades.
Dos elementos discutidos até aqui, cabe focar rapidamente a noção de “sujeito”, justamente o ponto nevrálgico onde se permite entender a operação de causalidade da cultura e o seu aspecto relacional, conforme apresentado acima.
A noção de sujeito utilizada neste texto parte da consideração de que a socialização e a formação da subjetividade estão essencialmente ligadas e são produzidas culturalmente (e não só economicamente), no âmbito das relações sociais predominantes em determinada época histórica. Nesse sentido, atualmente vivemos em uma configuração de sociedade sob o poder absoluto do capital e de sua cultura correspondente, que é da ordem do sistema. Isso significa que as diversas esferas que a constituem – como no caso de sua esfera cultural – passam a operar na lógica da relação de troca, em que tudo se reduz ao denominador comum da concorrência, da permutabilidade e da equivalência. Em outra via, isso também é delimitar, na abrangência do sistema, que os sujeitos detêm individualidade e personalidade na medida em que estas podem ser abstraídas ou equiparadas a algo pertencente ao estado de coisas valorizado pelo processo civilizador de tal sistema reinante. Nos termos de Adorno & Horkheimer, “personality significa [para as pessoas] pouco mais do que possuir dentes deslumbrantemente brancos e estar livres do suor nas axilas [...]”[5].
Entretanto, para deixar manifesto, os sujeitos estão longe de serem pensados, aqui, e precipitadamente, como agentes passivos e sem consciência desse processo. Porque, como aspecto cultural, é preciso reconhecer a interação que ocorre e que está unida à relação entre indivíduo e sociedade, e isso sem hipostasiar unilateralmente qualquer um dos elementos deste par como absolutamente determinante sobre o outro.
De maneira diversa, não basta dizer que não sendo passivos, os sujeitos decifram a realidade cada um ao seu modo – o que é uma frase vazia -, pois, com o desenvolvimento econômico-político capitalista e sua cultura correspondente, que exige a entronização do princípio de concorrência, o que tem predominado é, por um lado, a adaptação, a qual, por sua vez, leva à integração. Se, de fato, “a compreensão clara da interação entre indivíduo e a sociedade tem uma conseqüência de maior importância [...] na idéia de que o homem só atinge a sua existência própria, como indivíduo, numa sociedade justa e humana”, o que se observa no estado de coisas atual é que “a sociedade, que estimulou o desenvolvimento do indivíduo, desenvolve-se agora, ela própria, afastando de si o indivíduo, a quem destronou”[6]. Deveríamos falar, então, não de passividade, e sim, por outro lado, de um tipo muito heterônomo de conformismo - pois, no limite, divisa-se que “quem resiste só pode sobreviver integrando-se”[7]. Eis a tríade: adaptação, conformismo, integração.
Nesse percurso, há majoritariamente pseudo-individualidades, porque o individual foi substituído pelo “estereotipado” – e esta afirmação vale sobremaneira para os adeptos da cultura “jovem” (que não é mais simplesmente um período ou faixa de idade, mas um modo de ser), subsumida que está por valores e estilos padronizados, relativos à vestimenta, ao corte de cabelo, à música preferida, aos lugares que freqüenta sob o signo da diversão, etc – locus privilegiado da indústria cultural.
Correlativamente, a cultura, assumindo sua pertinência na forma de crítica social – como um pensamento que identifica as contradições da nossa realidade – engendra meios de ocasionar a suspensão dessa tríade, ao menos momentaneamente, e mostrar que a construção de um novo mundo é possível. Tal é a Entzauberung der Welt (desencantamento do mundo), acrescente-se, que muitos artistas procuram propiciar quanto ao modo de entendimento da nossa realidade imediata, que surge às vezes como dada, petrificada, naturalizada.
Com essa avaliação, embora rápida, espera-se contribuir para o pensamento e a análise da importância da cultura dentro de seus moldes causais e relacionais.
A construção de um mundo melhor, sinônimo de “uma sociedade justa e humana”, passa também, sem sombra de dúvidas, pela ação cultural – ou melhor, se realiza por ela. Não é mais possível ouvir e sustentar comodamente os discursos de propaganda cultural que servem a espúrios objetivos eleitoreiros ou de jogada de marketing, introduzidos num aqui e agora que se desintegra no momento mesmo em que deveria tomar forma uma práxis que seja realmente ação efetiva, programática e sistemática. Tal práxis, enfim, afasta-se do “caminho pecaminoso” de ser simplesmente um discurso, quase sempre vazio de conteúdo e de significação transformadora, e aproxima-se daquilo que inaugura o novo no horizonte da história.
[1] Cf. EAGLETON, Terry. A idéia de cultura. São Paulo, UNESP, 2005.
[2] A partir de sua proveniência, eis algumas acepções típicas do termo cultura: 1) Agricultura: a) ação de cultivar a terra; b) produto de tal cultivo, plantação etc., c) produção com técnicas especiais; 2) Biologia: a) cultivo de célula ou tecido vivo, b) criação de alguns seres vivos (moluscos, peixes etc.); 3) Derivação (sentido figurado): a) o rol de conhecimentos, b) o saber de uma pessoa ou grupo social etc.; 4) Antropologia: a) conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social; b) forma ou etapa das tradições e valores intelectuais, morais, espirituais etc., c) caracterização de uma civilização específica, d) complexo de atividades, instituições, padrões sociais ligados à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins etc. Ainda há os usos em locuções e derivações, com sentidos antropológico e sociológico: cultura de massa; cultura de consumo; cultura erudita / cultura clássica; cultura popular / cultura tradicional / cultura folclórica; cultura física (prática de esportes e ginástica etc.); cultura brasileira; indústria cultural; cultura empresarial; cultura política; cultura religiosa etc. Esses exemplos, diga-se, não pretendem esgotar os muitos usos que se fazem presentes em nossa contemporaneidade e que surgem a cada dia.
[3] Cf. ORTIZ, Renato. ‘Estudos Culturais’. In: Tempo Social – revista de sociologia da USP. V.16 (nº1), junho de 2004, p.119 – 127.
[4] Cf. BENJAMIN, Walter (1996) ‘Que é o teatro épico? Um estudo sobre Brecht’ In: Magia e Técnica, Arte e Política – Obras Escolhidas. São Paulo, Brasiliense, p.86.
[5] ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. (1997) Dialética do Esclarecimento. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, p.156.
[6] ADORNO, Theodor & HORKHEIMER, Max. ‘Indivíduo’ In: Temas Básicos da Sociologia. São Paulo, Cultrix, 1973, p.54-55.
[7] idem, 1997, p.123.











Sou Trindade também
E sou também Mauricio
Mas “vou” daqui de Minas
Perto de Ouro Preto
Palavras que jogam luz na coisa polissêmica da vida – a cultura é sem dúvida feita de diâmica, troca, compartilhamentos afetivos gestuais e digitais.
Ft Abç
Maurício Trindade